top of page

Sequestro de Maduro e Invasão Ilegal da Venezuela pelos Estados Unidos

  • Foto do escritor: paralelo33
    paralelo33
  • 4 de jan.
  • 8 min de leitura


No dia 03 de janeiro de 2026, durante a madrugada, o Governo dos Estados Unidos operou um ataque à Venezuela, atingindo sua capital Caracas, além de outras regiões do país. O presidente estadunidense Donald Trump afirmou que Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores foram capturados, ao mesmo tempo em que o casal foi denunciado pela Procuradoria-geral dos EUA à seção do Distrito Sul de Nova York, em um dos tribunais conhecidos por aplicar penas duras para casos de narcoterrorismo, um dos crimes acusado pela Procuradoria-geral norte-americana.

 

O presidente Maduro e sua esposa, foram encaminhados para Guantánamo (Cuba) à bordo do Navio USS Iwo Jima, de onde foram levados de avião para Nova York. Trump divulgou em suas redes sociais uma foto de Nicolás Maduro vendado com uma garrafa de água nas mãos, supostamente dentro do navio viajando no Caribe.

 

A vice-presidente Delcy Rodriguez, durante a manhã do dia 03, exigiu prova de vida de Maduro e disse ao jornalista brasileiro Breno Altman que não sabia a localização do presidente. Rodriguez assume a presidência do país na ausência de Maduro, e de acordo com a estrutura do governo Venezuelano, ela permanece no poder até a realização de novas eleições que devem ser convocadas, já que a vice-presidente não é eleita em conjunto com o presidente no país, sendo indicada posteriormente a eleição pelo candidato vencedor e governando como uma espécie de “primeira-ministra”. 

 

De acordo com a Constituição Venezuelana em seu artigo 233, a Assembleia Nacional deve convocar uma nova eleição dentro de 30 dias consecutivos, enquanto a vice-presidente exerce o cargo. Entretanto, as declarações do presidente Trump, do Secretário de Estado Marco Rubio e do Secretário de Guerra Pete Hegseth, indicam que os Estados Unidos planejam tomar o governo Venezuelano durante “um período de transição” que seria necessário até haver condições seguras, apropriadas e criteriosas para uma transição. 

 

Trump ainda declarou que Marco Rubio conversou com a vice-presidenta, que se mostrou “disposta a cooperar” com “o que os Estados Unidos precisar” e elogiou a atitude de Delcy Rodriguez como “graciosa”, sugerindo que o tom da conversa pode ter sido de uma abertura diplomática maior do que o imaginado para tal situação.


Mesmo assim, o presidente norte-americano declarou que não permitirão que membros do governo chavista continuem no poder, e que o governo estadunidense conduzirá a Venezuela ao mesmo tempo em que leva as empresas de exploração de petróleo norte-americanas de volta para o país, gerando riqueza que “ficará na Venezuela” e que também servirá para “reembolsar” supostos prejuízos que o país causou aos Estados Unidos. Além disso, o presidente afirmou que o custo disso para o governo seria "nenhum", graças aos rendimentos proporcionados pela exploração dos recursos naturais.

 

Repercussão na comunidade internacional


Presidentes e Primeiros-ministros do mundo todo condenaram a ação estadunidense, defendendo que mesmo sob governos autoritários, a soberania nacional é "inviolável e sagrada". Até mesmo líderes de espectros políticos adversários, como Marine Le Pen da extrema-direita francesa, condenaram o ataque.

O presidente Lula condenou os ataques realizados contra a Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores, afirmando que os bombardeios praticados pelos Estados Unidos são uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela” e “ultrapassam a linha do aceitável”, além de representarem “um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”. Sem citar os nomes de Trump ou de Maduro, o presidente ainda declarou que o uso da força, em uma flagrante violação do direito internacional, é o caminho para “um mundo de violência, caos e instabilidade”.

 

O presidente reafirmou a posição brasileira de repúdio a ações militares unilaterais e destacou que o Brasil adotou a mesma posição para outros conflitos correntes, ainda destacou que os atos ofensivos ameaçam a preservação da América Latina como uma zona de paz.

 

Lula defendeu a ordem liberal internacional, ao pedir uma resposta firme da Organização das Nações Unidas (ONU) e reforçar que o Brasil está disposto a ajudar a restabelecer o diálogo e a cooperação. Vale lembrar que o governo Brasileiro não reconheceu o resultado da última eleição ocorrida na Venezuela, que manteve Maduro como presidente e teve seu resultado contestado por organizações internacionais e diversos países.

 

O presidente brasileiro ainda convocou uma reunião sobre o assunto, juntamente com o Ministro das Relações Exteriores, o Ministro da Defesa, o Ministro-Chefe da Casa Civil, o Ministro-Chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, além de representantes da Secretaria de Relações Institucionais e do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Na reunião, o Presidente da República reiterou sua posição acerca do conflito.

Instabilidade regional


A ofensiva militar dos Estados Unidos em território venezuelano é mais que um evento isolado, trata-se de um acontecimento que projeta efeitos amplos sobre a América Latina, região que, apesar de suas crises políticas recorrentes, manteve nas últimas décadas um relativo consenso em torno da resolução pacífica de conflitos interestatais e da rejeição a intervenções externas diretas. Porém, a investida militar ocorrida durante a madrugada do dia 03 de janeiro de 2026, rompe com tal padrão histórico e introduz um elemento de incerteza sistêmica.

 

A princípio, a captura do chefe de Estado da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos, sem mediação unilateral clara, configura-se como uma fragilização dos princípios centrais do sistema internacional, como a soberania nacional e a não intervenção, consagrados na Carta das Nações Unidas, reacendendo memórias históricas de intervenções estrangeiras na região ao longo do século XX. Dessa forma, tal operação alimenta a desconfiança estratégica dos países em relação aos Estados Unidos, incentivando discursos de autonomia regional e resistência política, o que fomenta um endurecimento retórico e diplomático por parte dos governos da região. O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que a ação estabelece um “precedente perigoso” e levantou sérias preocupações sobre a violação da Carta da ONU. 

 

Por outro lado, parte dos governos latino-americanos recebeu a operação de forma positiva, como foi o caso da Argentina, no qual o atual presidente do país, Javier Milei, comemorou a captura do presidente venezuelano. Os governos dos países latino-americanos que se encontram mais alinhados aos Estados Unidos veem a iniciativa norte-americana como uma oportunidade para a reorganização política da Venezuela e para o enfraquecimento de governos alinhados a projetos considerados antidemocráticos ou insubordinados aos interesses estadunidenses. 

 

Ademais, vale ressaltar que a Venezuela possui vastas reservas de petróleo, sendo o país com maior quantidade das mesmas no globo, sendo assim, qualquer incerteza quanto à sua governabilidade repercute nos mercados internacionais de energia, no qual o ambiente de insegurança política tende a afastar investimentos, elevar custos financeiros e ampliar a percepção de risco não apenas em relação à Venezuela, mas à América Latina como um todo., gerando aumento no custo dos combustíveis e inflação global.

 

Consequências humanitárias


As consequências sociais e humanitárias podem se agravar ainda mais com a operação militar dos Estados Unidos; Há anos, a Venezuela enfrenta uma grave crise econômica e intenso fluxo migratório e a intensificação da instabilidade política pode agravar esse cenário, gerando novos deslocamentos populacionais e aumentando a pressão sobre os sistemas sociais e econômicos dos países vizinhos.


Assim, a intervenção também fragiliza o papel de organismos multilaterais, como a ONU e a OEA, cuja função central é justamente prevenir conflitos e promover soluções pacíficas. Tal descredibilização dessas instituições ocasiona no enfraquecimento de normas internacionais e a sobreposição do uso da força militar em detrimento do diálogo diplomático.

Motivações norte-americanas


Mas o que levou realmente os Estados Unidos a invadir a Venezuela e depor seu presidente? A justificativa oficial do governo norte-americano foram os problemas enfrentados pelo país no combate às drogas, em especial a cocaína, que supostamente era levada aos EUA à partir de embarcações que saíam da Venezuela e atravessavam do Caribe até a Flórida. Essas acusações ao presidente venezuelano já ocorrem desde o ano de 2013, o qual foi apontado como participante do grupo Cartel de los Soles (organização venezuelana que segundo os EUA tem relação com o tráfico de drogas). 

 

Entretanto, por trás da questão do narcotráfico divulgada como a principal razão para a captura de Nicolás Maduro, especialistas analisam mais a fundo a situação da Venezuela para entender o por que o ataque da madrugada beneficia tanto o governo americano. 

 

Atualmente, ao analisar o cenário energético global percebe-se que o território venezuelano é muito mais do que apenas terras comuns da América do Sul. A realidade por trás disso se mostra quando notamos que esse pequeno espaço guarda a maior reserva de petróleo do mundo, 17% do total do petróleo mundial está na Venezuela, além de reservas minerais e de terras raras. Ao nos perguntarmos o porquê da Venezuela não fazer uso dos recursos energéticos que têm, começamos a analisar uma série de fatores que também necessitam de contexto. Em 2013, por exemplo, durante o governo de Barack Obama, a Venezuela foi alvo de um pacote de sanções que incluíam o congelamento das ações nos EUA da empresa petroleira venezuelana PDVSA gerando perdas de 11 bilhões de dólares somente no ano de 2014. 


Apesar das sanções, atualmente os EUA ainda são um dos principais compradores do petróleo venezuelano. Nesse sentido, podemos entender a dimensão da importância do potencial energético para os Estados Unidos. Todos esses aspectos influenciam e são levados em consideração ao planejar um ataque militar estratégico, já que são esses aspectos que definem o lucro ou as despesas que se obtém com o ataque (trade-off).


"América para os Americanos"


Em diversas partes do pronunciamento oficial do presidente Donald Trump no dia 03/01 foram relembradas as inspirações para a organização do ataque ao solo venezuelano, advindas da antiga Doutrina Monroe.


A Doutrina Monroe foi uma doutrina formulada pelo presidente James Monroe em 1823, marcada pelo slogan “América para os Americanos”. Esse slogan sintetizava a ideia da diplomacia dos Estados Unidos de defender o continente Americano em relação a qualquer interferência europeia, passando a deixar de lado outros conflitos ao redor do mundo, especialmente os relativos à Europa e suas colônias em outros continentes.

Posteriormente, durante o governo de Theodore Roosevelt em 1904, a diplomacia evoluiu a doutrina para o chamado “Corolário Roosevelt” que reinterpretou a antiga fórmula Monroe retirando o foco somente das ameaças europeias e ampliando-o também para ameaças internas de países latino-americanos. Constituíam-se ameaças quando o entendimento era de que os países eram incapazes de defender a própria estabilidade interna, ordem política ou economia. A partir disso, portanto, formaram-se as justificativas para as diversas interferências militares do governo estadunidense, que foram usadas como ferramenta de pressão para alinhar a política latino-americana com o interesse dos Estados Unidos.  


No cenário atual o presidente Donald Trump, ao conclamar publicamente a Doutrina Monroe em seus discursos, mostra que a operação em território venezuelano não foi uma ação isolada, e pode vir a acontecer com outros Estados, como a Colômbia, o México e Cuba, citados nominalmente durante o discurso como preocupações futuras. É interessante entender que para o presidente Donald Trump, não são somente as operações militares e de inteligência que devem constituir a Doutrina Monroe, mas também as sanções, embargos e outros tipos de "castigo", que constituem o agora chamado "Corolário Trump".


Por enquanto, ficamos com a reflexão: o que desperta o interesse norte-americano é apenas a defesa do povo venezuelano? Ou a proximidade geográfica e a vasta quantidade de petróleo e outros recursos energéticos também exercem papel central nesse cenário?


Fontes: Reuters, BdF, Aljazeera English, Opera Mundi, G1, CNN Brasil, El País;

Escrito por: Guilherme Lopes Brandão, Júlia Ratke Ferreira, Emily Herbertz e Gustavo Garcia.

 
 
 

4 comentários


Bernardo Owergor
Bernardo Owergor
05 de jan.

Baita texto! Parabéns,

Curtir

Andrei
Andrei
05 de jan.

Texto muito interessante e bem explicado. Dá pra entender o assunto sem dificuldade e faz a gente refletir bastante sobre a situação

Curtir

eduarda
eduarda
05 de jan.

muito bom o texto pessoal, eu que nunca fui tanto de política, finalmente consegui compreender tudo que ta acontecendo

Curtir

Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
04 de jan.

Texto importante pra entender um pouco melhor como os Estados Unidos avançam no domínio da América Latina.

Curtir
bottom of page