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Além das Trincheiras: A Batalha por Autonomia, Identidade e Sobrevivência em Rojava

  • Foto do escritor: paralelo33
    paralelo33
  • 30 de jan.
  • 10 min de leitura

Quem são os Curdos Sírios e o que Defende o Projeto de Rojava?


No início de 2026, vídeos de confrontos na Síria ganharam grande visibilidade na internet. Um deles, em especial, chamou a atenção mundial: nele, um grupo derrubava e destruía a estátua de uma mulher curda, celebrando o ato e proclamando "o fim de Rojava". A cena gerou uma onda de questionamentos: Afinal, o que é Rojava? Quem são os curdos? O que está acontecendo na Síria? Por que tanta hostilidade contra uma simples estátua? E o que ela representava?



     Mais do que um registro de conflito, o episódio serve como bússola para compreender as complexas camadas históricas, políticas e identitárias do conflito sírio e do projeto de autonomia curda. Este texto tem como objetivo justamente desvendar essas camadas de história e política, respondendo a essas perguntas e explicando a importância simbólica das imagens e vídeos que vêm sendo amplamente divulgados.

     A Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (também conhecida como Curdistão Sírio ou apenas Rojava) é uma região autônoma, autogovernada desde 2012. Rojava teve o seu surgimento dentro do contexto da Guerra Civil Síria¹, e sua filosofia política de autonomia e libertação são uma herança do teórico Abdullah Öcalan² - fundador do modelo político chamado de Confederalismo democrático. Esse modelo se baseia em um sistema de auto organização essencialmente democrático com princípios como: democracia direta, a autodeterminação do povo curdo, preservação da sua língua e cultura,e engloba não somente o povo curdo mas também outras minorias.


“Sobre esta base, os curdos devem ser livres para organizar-se de tal maneira que sua língua e cultura possam ser expressas e que eles possam desenvolver-se nos planos econômico e ecológico. Esta nova realidade permitiria a curdos, turcos e membros de outras culturas uma convivência sob a proteção de uma ‘Nação Democrática Turca’. Isto somente seria possível, no entanto, através de uma constituição democrática e de um quadro legal avançado que garantiria o respeito às culturas minoritárias”. (ÖCALAN, 2008, p.1)


      Originalmente, tanto Abdullah Öcalan quanto o próprio PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) se fundaram sobre uma plataforma explícita de marxismo-leninismo, visando a criação de um Estado curdo socialista. No entanto, ao longo das décadas - especialmente após a captura e o aprisionamento de Öcalan em 1999 - ocorre uma profunda transformação ideológica:


"Por mais que em sua origem o PKK e Öcalan, como seu principal ideólogo, lutassem a partir de uma perspectiva marxista-leninista [...] passou de um socialismo de viés centralizador e estatista para um socialismo de influência libertária, um socialismo democrático cujo tipo de administração ‘pode ser chamada de administração política não estatal ou democracia sem Estado’." (DIRIK; GRAEBER; COMITÊ DE RESISTÊNCIA CURDA, 2018, p.53)


      O entendimento da questão estatal é algo central e decisivo para analisar o conflito em Rojava e compreender as motivações que levam o PKK a declarar que já não deseja criar um Estado curdo (DIRIK; GRAEBER; COMITÊ DE RESISTÊNCIA CURDA, 2018, p.28).

      Os curdos na Síria, especificamente nas áreas conhecidas como Rojava, proclamaram sua autonomia política e administrativa a partir de 2012. O recuo do controle estatal, é crucial e metodologicamente necessário para delimitar que não se trata de uma região com um Estado soberano reconhecido, mas sim de uma experiência de autogoverno não-estatal. Dessa forma, a denominação mais precisa e descritiva seria, propriamente dita, "Território Autônomo do Norte e Leste da Síria" (nome administrativo atual) ou "Região Autônoma de Rojava".

       Além da rejeição ao modelo estatal tradicional, um outro pilar fundamental e distintivo, que imprime um caráter único e radicalmente inovador à experiência autonômica de Rojava, é a questão da libertação das mulheres. A participação massiva e estruturante das mulheres permeia todos os níveis do projeto social e político: desde a linha de frente da defesa territorial, com unidades militares femininas como as YPJ³, até os centros de tomada de decisão política. Acerca desse tópico Öcalan também afirma:  


“A questão dos direitos da mulher foi relativamente renegada por regimes socialistas; afirmava-se que esta questão seria resolvida automaticamente uma vez solucionados os problemas econômicos e outros problemas sociais. As mulheres, porém, podem ser consideradas como uma classe ou uma nação oprimida: um gênero oprimido. Enquanto a liberdade e os direitos da mulher não forem discutidos em um contexto histórico e social, enquanto uma teoria adequada não for formulada, tampouco existirá prática adequada. Em vista disso, a liberdade e os direitos da mulher devem constituir uma parte estratégica da luta pela liberdade e democracia no Curdistão”. (ÖCALAN, 2008, p.34)



       Após 2012, durante a administração autônoma em Rojava, às mulheres se tornaram a figura mais marcante da revolução - o que construiu um dos projetos mais inovadores do século XXI no que diz respeito à participação política feminina. A revolução não apenas incluiu as mulheres, mas estruturou-se em torno da noção de que sua libertação é condição fundamental para a libertação de toda a sociedade.

      Esta afirmação estabelece o fundamento legal e filosófico da inclusão. Reconhecendo que desigualdades históricas e sociais impedem uma participação equitativa, o sistema adota cotas como ferramenta de justiça compensatória. Não se trata de um gesto simbólico, mas de um dispositivo estrutural para garantir que mulheres, tradicionalmente marginalizadas na esfera pública, tenham presença obrigatória e voz nos espaços de decisão desde a base.


“Para a eleição de cargos, tem um sistema chamado co-liderança. Por um lado, não existem cargos unipessoais, são sempre duais, por exemplo, em cada cantão há uma co-presidenta e um copresidente. Aliás, a paridade de gênero é obrigatória, já que todo cargo deve ser compartilhado entre um homem e uma mulher”. (DIRIK; GRAEBER; COMITÊ DE RESISTÊNCIA CURDA, 2018, p.105)


      O sistema de co-liderança é talvez a inovação institucional mais emblemática. Ao abolir cargos unipessoais e exigir que toda posição de liderança seja compartilhada por uma dupla homem-mulher, destrói-se a noção de poder vertical e individualista. Isso assegura que a tomada de decisão em todos os níveis seja permeada por uma perspectiva de gênero, e que mulheres exerçam autoridade real e visível, pilotando a administração de forma igualitária.


"Existe, contudo, outro mecanismo muito importante para entender a relevância política das mulheres no movimento. Esse outro mecanismo é a criação dos Conselhos de Mulheres, que dá origem a uma dualidade do sistema dos Conselhos Populares, por meio da existência de um organismo de mulheres equivalente a cada nível dos Conselhos Populares."(DIRIK; GRAEBER; COMITÊ DE RESISTÊNCIA CURDA, 2018, p.144)


       Os Conselhos de Mulheres não são comissões subordinadas, mas uma estrutura paralela e autônoma que duplica todo o sistema de conselhos populares. Essa "dualidade de poder" garante que as mulheres tenham um espaço próprio, livre da potencial dominação masculina, para desenvolver sua agenda política, fortalecer sua organização e levar demandas específicas e unificadas às assembleias mistas.

      Os espaços não mistos servem como laboratórios, onde as mulheres ganham confiança, se formam politicamente e consolidam posições coletivas. O processo é crucial: elas primeiro deliberam entre si, fortalecendo uma visão comum, para depois negociar de uma posição de força nos espaços mistos. Isso transforma sua participação de meramente "estar presente" para "intervir com poder organizado".

      Após isso, fica claro o porquê a derrubada de um símbolo, em especial uma estátua em homenagem a uma mulher curda, é forte ao ponto de ser declarado nas redes sociais o fim daquela experiência. Como exposto anteriormente, as mulheres se tornaram a cara da revolução na experiência autônoma de Rojava - uma experiência autônoma de caráter socialista, com forte participação feminina que propõe uma organização política e econômica fora dos modelos estatais.


Créditos: Delil Souleiman para a AFP.

      

Com base na análise apresentada, podemos agora retornar com mais propriedade às perguntas iniciais que motivaram este texto. O que é Rojava? Um projeto político revolucionário, concretizado na forma de uma administração autônoma no norte e leste da Síria a partir de 2012. Baseado no confederalismo democrático, ele representou uma experiência única de autogoverno, ecologia e libertação das mulheres. Quem são os curdos? São um povo sem Estado, uma das maiores nações do Oriente Médio, com uma história marcada pela perseguição e pela luta por direitos e reconhecimento. Em Rojava, protagonizaram uma das experiências de autonomia mais significativas da região no século XXI. Qual a fonte do ódio relacionada a aquela estátua e o que ela representa? A estátua da mulher curda não era um mero monumento. Era um poderoso símbolo duplo:

  • Era uma figura de resistência e revolução, representava a vitória contra o ISIS, a defesa de Kobane e a coragem das Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ). Era a face concreta da revolução de Rojava.

  • Do a exposição de um Projeto Político Inimigo. Isso é, a construção de um sistema baseado na autonomia radical, na igualdade de gênero e em uma ideologia contrária ao Estado-nação. Derrubá-la foi um ato de aniquilação simbólica, destinado a apagar publicamente a memória e a legitimidade daquele projeto.

       Por fim, nos questionamos acerca dos recentes avanços do Estado Sírio e seus impactos na região.


A Ofensiva na Linha de Frente: O Que os Recentes Ataques Revelam sobre o Equilíbrio de Poder?

      O acordo de cessar-fogo anunciado em 18 de janeiro de 2026 representa um momento decisivo na longa e complexa guerra civil da região. Nesse dia, foi estabelecida uma formalização de um pacto direto entre o governo central em Damasco e as Forças Democráticas Sírias (FDS), lideradas pelos curdos. A escalada militar parece ter evidenciado os limites do poder de cada ator, tornando uma solução negociada não apenas uma alternativa viável, mas uma necessidade estratégica para evitar um desgaste ainda maior. Para o governo sírio, a ofensiva representava um esforço para consolidar o controle territorial; para as FDS, uma luta pela sobrevivência de seu projeto político. No entanto, nem todas as alas das FDS foram receptivas ou a favor desse acordo - algumas delas chegaram a  considerá-lo uma traição aos seus esforços revolucionários.

      O impacto central e mais profundo do acordo é o fim da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES / Rojava). A dissolução desta entidade autônoma, que administrava quase um terço do território sírio, marca o fim de uma era para o movimento curdo e redefiniu radicalmente o futuro da governança no nordeste do país. Para a administração de Damasco, supostamente liderada pela figura de transição Farouk al-Sharaa, o acordo representa um passo fundamental em direção ao seu objetivo estratégico de longo prazo: a restauração da soberania estatal sobre a totalidade do território sírio. A negociação, em vez da continuação de uma campanha militar dispendiosa, oferece um caminho mais eficiente para alcançar essa meta, motivada por fatores-chave como a consolidação territorial, o controle de recursos estratégicos (petróleo e agricultura) e a segurança das fronteiras com a Turquia e o Iraque. Para as lideranças políticas curdas e para as áreas da FDS que foram favoráveis ao acordo, a decisão de aceitar um acordo que dissolve sua autonomia foi, sem dúvida, uma escolha dolorosa, ainda que buscasse garantir termos favoráveis para sua população. Tais termos incluiriam, logicamente, anistias para combatentes, a preservação de direitos culturais e linguísticos, e a possibilidade de alguma forma de descentralização administrativa ou representação política garantida dentro da estrutura centralizada do Estado sírio, ecoando demandas históricas anteriores ao auge de Rojava.

       O acordo sírio-curdo não é um evento isolado, mas um ponto de inflexão geopolítico cujas consequências afetarão os interesses e as estratégias das potências regionais e internacionais com presença na Síria. A reconfiguração do mapa de poder interno força uma adaptação externa. Para a Turquia, por exemplo, o desmantelamento de uma entidade autônoma curda em sua fronteira sul seria a realização de um objetivo de segurança nacional de longa data. A restauração do controle de Damasco sobre a fronteira seria vista como um resultado altamente favorável, eliminando o que considerava uma ameaça existencial.


Conceitos-Chave para Entender o Conflito

  • Estupro como Arma de Guerra: A Violência Sistêmica contra Mulheres e a Comunidade

   No contexto dos "combates pesados" que precederam o acordo de cessar-fogo, a violência contra as mulheres surge como um componente da desestabilização comunitária.  Como o modelo social de Rojava tinha a libertação das mulheres como pilar central, a violência sexual e sistêmica é utilizada não apenas como crime individual, mas como uma ferramenta para quebrar a resistência moral e a estrutura social da comunidade. Relatos e registros digitais encontrados nas mídias sociais apontam para o impacto desproporcional do conflito sobre as mulheres (o corte de seus cabelos, insinuações de violência sexual, vídeos explícitos registrando suas mortes, etc), que enfrentam a vulnerabilidade extrema durante a queda das instituições autônomas e a transição para o controle governamental ou de milícias.

  • Apagando Identidades: A Destruição de Símbolos Culturais e a "Guerra da Memória"

      O anúncio do "Fim de Rojava" não é apenas uma mudança administrativa, mas o início de um processo de apagamento cultural. A transição de poder envolve a remoção de bandeiras, estátuas e nomes de locais que remetem à administração liderada pelos curdos, substituindo-os pelos símbolos do governo central ou das forças ocupantes. A destruição de monumentos e o controle sobre a narrativa histórica visam invalidar a experiência de autogoverno dos últimos anos. A "guerra da memória" manifesta-se na tentativa de silenciar a identidade política curda em favor de uma identidade nacional centralizada.

  •  Além das Armas: A Resistência Civil, o Ativismo Global e a Defesa do Modelo Social de Rojava

   Mesmo com a integração forçada ao governo central, a resistência civil se manifesta na manutenção de práticas comunitárias e na recusa em abandonar o modelo social que priorizava a ecologia e o feminismo. Em meio ao apagamento de símbolos curdos pelo governo central, as tranças representam a preservação da identidade feminina curda. Isso conecta a luta curda a movimentos feministas internacionais, transformando um elemento tradicional em um símbolo de resistência contra a violência sistêmica e o patriarcado estatal que o novo acordo com o governo de Sharaa pode reimpor. Diante do fim de Rojava como entidade política, o corpo da mulher — e especificamente o cabelo trançado — torna-se o último território de autonomia. 


Notas de rodapé:

¹A Guerra Civil Síria é um conflito interno em andamento na Síria, que começou como uma série de grandes protestos populares em 26 de janeiro de 2011 e progrediu para uma violenta revolta armada em 15 de março de 2011, influenciados por outros protestos simultâneos no mundo árabe.

²Abdullah Öcalan, também conhecido por Apo, é um teórico político de esquerda curdo de nacionalidade turca, preso político, um dos membros fundadores do Partido dos Trabalhadores do Curdistão e o criador do confederalismo democrático.

³Força Autônoma e de Vanguarda: As YPJ são uma milícia feminina autônoma, com estrutura e comando próprios, atuando ombro a ombro com as YPG (Unidades de Defesa Popular). Elas não são uma subunidade, mas uma força paralela e igualitária.


Referências Acadêmicas

  • Öcalan, Abdullah. "Guerra e paz no Curdistão." Perspectivas para uma solução política da ques (2008).

  • Dirik, Dilar, David Graeber, and Comite de Resistência Curda. A revolução ignorada: Liberação da mulher, democracia direta e pluralismo radical no Oriente Médio. Editora Autonomia Literária LTDA-ME, 2018.


Notícias


Escrito por: Júlia Ratke Ferreira e João Artur Machado Mello Neto.

Edição e Publicação por: Guilherme Lopes Brandão.

 
 
 

1 comentário


Emiliano Kelm
Emiliano Kelm
15 de fev.

Excelente reflexão, obrigado pela precisão na exposição e divulgação desse conteúdo de importância central.

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